MP-MA investiga denúncia de aumento de 159% nas mortes em UTIs do Hospital da Criança, em São Luís

MP investiga aumento de mortes em meio a mudança na gestão do Hospital da Criança

MP-MA investiga denúncia de aumento de 159% nas mortes em UTIs do Hospital da Criança, em São Luís
MP-MA investiga denúncia de aumento de 159% nas mortes em UTIs do Hospital da Criança, em São Luís (Foto: Reprodução)

MP investiga aumento de mortes em meio a mudança na gestão do Hospital da Criança
O Ministério Público do Maranhão (MP-MA) investiga o aumento no número de mortes nas UTIs infantis do Hospital Odorico Amaral de Matos, o Hospital da Criança, em São Luís, uma das unidades públicas de saúde mais importantes do estado.
A investigação reuniu reclamações enviadas à Ouvidoria-Geral do Sistema Único de Saúde (SUS), que relatam a situação das UTIs, a incapacidade técnica de profissionais, atos de negligência e imperícia médica, além do consequente aumento no número de óbitos.
Segundo a denúncia, em 2025, 113 crianças teriam morrido no hospital. Desse total, 101 mortes aconteceram dentro das três UTIs do Hospital da Criança. O aumento seria de 159% em relação a 2024, quando foram registrados 39 óbitos (veja mais abaixo o que dizem as autoridades).
"Esses casos aí demonstram não somente uma negligência no atendimento, ao ter uma escala que não atende à demanda e à sobrecarga de trabalho dos médicos pediatras, como também, pelas prescrições, certamente imperícias por parte dessa equipe de profissionais do IBMED de Teresina" , explicou o promotor de Justiça Herbertb Figueiredo, da 1ª Promotoria da Saúde.
O aumento dos óbitos coincide com a mudança na gestão das UTIs do Hospital da Criança. Em outubro de 2025, a Prefeitura de São Luís realizou uma licitação para contratar uma empresa responsável pelo gerenciamento das UTIs da unidade.
O Instituto Brasileiro de Serviços Médicos (IBMED) venceu a licitação. Segundo a denúncia encaminhada ao MP-MA, o contrato teria reduzido drasticamente os recursos destinados ao custeio das UTIs, assim como o número de médicos da equipe.
"Hoje nós trabalhamos lá com três médicos, um em cada UTI. E já foi levado para a direção, levado para as coordenações. Já foi falado, já foi dito de todas as formas que isso é ilegal, que é errado, que não pode, que não é assim" , disse uma funcionária do hospital que preferiu não se identificar.
Mãe diz que demora no atendimento no Hospital da Criança em São Luís causou morte de bebê com bronquiolite: 'cada minuto conta'
Ministério Público do Maranhão investiga o aumento de mortes nas UTIs infantis do Hospital da Criança
Em 2024, a Defensoria Pública do Estado recomendou ao Ministério Público que anulasse o contrato entre a Prefeitura e o IBMED. A decisão apontava falhas graves no edital, como a redução da equipe e a contratação de médicos sem a especialização exigida para o atendimento infantil. As irregularidades foram confirmadas pelo Ministério Público.
"Há um parecer técnice-centábil da assessoria técnica do Ministério Público no qual há, realmente, a constatação não apenas de uma, mas de várias irregularidades no processo licitatório. O processo licitatório está eivado de nulidades que marcaram esse certame", disse o promotor.
O contrato poderá ser cancelado, segundo o Ministério Público, caso sejam comprovados atos de negligência ou imperícia nas mortes. O órgão informou que vai abrir um inquérito para apurar as responsabilidades.
Pais alegam negligência
Famílias de pacientes relatam falhas no atendimento, falta de exames e redução de equipes
Os relatos de pais apontam falhas no atendimento, falta de medicamentos, redução das equipes e possíveis problemas na assistência prestada às crianças internadas.
Samila dos Santos Lobato e Ismael perderam os dois filhos gêmeos, Bento e Bernardo, de quatro meses, em menos de 24 horas. Os bebês, que moravam com a família em Rosário, foram levados ao hospital com sintomas gripais.
Bento foi internado na madrugada de sábado, 27 de junho, com suspeita de bronquiolite. Segundo a mãe, ao chegar à unidade, ela se deparou com várias crianças entubadas aguardando atendimento. Oito horas depois, Bernardo foi internado no mesmo hospital.
"Quando eu entrei, meu coração esfriou porque vi várias crianças entubadas. Quando chegou a vez do meu filho, a médica o avaliou e disse que a solução seria entubá-le", contou Samila.
O quadro do bebê se agravou. Bento teve duas paradas cardiorrespiratórias e foi transferido para a UTI, mas não resistiu. O atestado de óbito aponta como causas da morte insuficiência renal aguda, pneumonia, pneumotórax e choque séptico, estágio mais grave da sepse, uma infecção generalizada que provoca uma resposta inflamatória intensa no organismo.
Na quarta-feira, enquanto Bento era enterrado em Rosário, o irmão Bernardo continuava internado em São Luís e seu estado de saúde se agravava. Segundo a família, ele ainda reagia quando a mãe voltou ao hospital após o enterro. Bernardo foi entubado, mas não chegou a ser levado para a UTI. Ele morreu na quinta-feira (2), por volta das 9h.
"É uma sensação horrível saber que levei meus filhos vivos. Eles olhavam para mim, e eu pensava que iam salvar a vida dos meus filhos, mas não", disse a mãe.
"Enterrar dois filhos em menos de 24 horas é inadmissível. Faltou atenção, faltou profissionalismo", afirmou Ismael.
Ismael registrou, em São Luís, um boletim de ocorrência para apurar a responsabilidade pela morte dos filhos. Segundo o delegado Joviano Furtado, o inquérito policial foi instaurado.
"Já instauramos o inquérito policial, estamos ouvindo o pai das vítimas e esperamos que, no prazo de 30 dias, possamos chegar à conclusão sobre a existência ou não de negligência por parte do hospital e, consequentemente, indiciar o (s) responsável(is) pelo fato. "
Outro caso é o de Otton, filho de Lexciane Barbosa e André Luís. O menino tinha paralisia cerebral, microcefalia e síndrome de West, mas, segundo os pais, recebia todos os cuidados necessários. Há seis meses, a criança morreu.
Otton foi internado em janeiro deste ano com uma infecção intestinal. Após 17 dias de internação, morreu. A declaração de óbito também aponta choque séptico como causa da morte.
"Eles nunca falaram que ele estava com sepse. Nunca falaram para a gente que ele estava com pneumonia. Para mim, faltou assistência total", disse a mãe.
Os pais afirmam que exames deixaram de ser realizados durante o período de internação e que, mesmo após a transferência para a UTI, a assistência não teria sido suficiente.
"Ele foi piorando, a gente questionando, e os fisiotenapeutas pedindo raio-X, mas o médico nunca passava", disse a mãe.
Os inquéritos estão em fase de conclusão. Caso sejam comprovados atos de negligência ou imperícia nas montes dessas crianças, o MP abrirá um inquérito criminal para apurar as responsabilidades.
Profissionais de saúde reclamam das condições
MP-MA investiga denúncia de aumento de 159% nas mortes em UTIs do Hospital da Criança, em São Luís
Profissionais de saúde que trabalham no Hospital da Criança e acompanham diariamente a rotina da unidade relataram as condições enfrentadas após a mudança na gestão das UTIs.
Segundo eles, as mudanças ocorridas após a troca da gestão das unidades, em outubro do ano passado, não se limitaram à redução do número de médicos. Também houve alteração no perfil técnico da equipe.
De acordo com os relatos, parte dos novos profissionais contratados não teria experiência em pediatria, apesar de atuar em um hospital especializado no atendimento infantil.
"Chegou uma nova equipe que, até onde a gente soube, todos deveriam ser pediatras. Mas, durante esse processo, fomos descobrindo que não são", afirmou um dos profissionais ouvidos, que preferiu não se identificar.
Outro médico, também sob condição de anonimato, afirmou que a falta de experiência teria impactado diretamente a assistência prestada às crianças.
"Estamos falando de um hospital pediátrico. Eles não têm arcabouço clínico e, muitas vezes, não sabem manejar" relatou.
Segundo os profissionais, os problemas começaram a aparecer no atendimento diário. Eles citam situações em que crianças em estado grave não teriam recebido o acompanhamento necessário.
Os profissionais também relatam que os setores de estabilização e curta permanência passaram a receber pacientes em estado grave devido à falta de vagas e à dificuldade de acesso às UTIs.
"Um dos piores casos que já vi foi o de um paciente que entrou em parada cardiorrespiratória em um leito que eles chamam de "leito de isolamento', acompanhado apenas da mãe. A criança entrou em parada. Quando as pessoas entraram para verificar qualquer coisa, ela já estava morta. Como uma criança entra em parada e ninguém percebe? Ninguém viu? Não há um profissional que permaneça à beira do leito dentro do isolamento. Isso é proibido pela alta gestão", disse a funcionária.
O que dizem as autoridades
Por meio de nota, a Prefeitura de São Luís informou que não houve aumento no número de óbitos no Hospital da Criança, mas apenas uma variação de 4,5% entre 2024 e 2025, passando de 112 para 117 mortes.
A gestão municipal também assegurou que o quadro de profissionais das UTIs cumpre integralmente as exigências da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Além disso, destacou que não há registros oficiais de desabastecimento generalizado de insumos e que o fluxo de materiais hospitalares segue um planejamento contínuo.
A Prefeitura também afirmou que a licitação e o contrato firmado com o IBMED cumprem rigorosamente a legislação e que o Tribunal de Contas do Estado do Maranhão (TCE-MA) negou os pedidos de suspensão e arquivou as representações apresentadas contra o município.
O Conselho Regional de Medicina do Maranhão (CRM-MA) informou que acompanha a situação da UTI Pediátrica do Hospital da Criança para garantir a segurança da assistência e as condições de trabalho dos médicos. O conselho ressaltou que atua conforme a legislação e que adotará as medidas cabíveis caso sejam constatadas irregularidades.
O Ministério Público Federal (MPF) informou que recebeu a denúncia e que ela será analisada por um procurador da República, responsável por avaliar a adoção das medidas cabíveis para apurar os fatos.
Já o Ministério da Saúde informou que está apurando as denúncias encaminhadas à Ouvidoria sobre as mortes registradas no Hospital da Criança, em São Luis.

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