Auditoria do Ministério da Saúde no Hospital da Criança em São Luís dura três horas e relatório final deve sair nos próximos dias

Auditoria do Ministério da Saúde no Hospital da Criança em São Luís dura três horas

Auditoria do Ministério da Saúde no Hospital da Criança em São Luís dura três horas e relatório final deve sair nos próximos dias
Auditoria do Ministério da Saúde no Hospital da Criança em São Luís dura três horas e relatório final deve sair nos próximos dias (Foto: Reprodução)

Auditoria do Ministério da Saúde no Hospital da Criança em São Luís dura três horas
A auditoria realizada por técnicos do Ministério da Saúde, nesta terça-feira (14), no Hospital da Criança Odorico Amaral de Matos, em São Luís, durou cerca de três horas. O relatório final da vistoria deve ser divulgado nos próximos dias. A equipe esteve no local para apurar denúncias relacionadas ao funcionamento das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) pediátricas da unidade.
A equipe veio de Brasília e é coordenada pelo diretor do Departamento Nacional de Auditoria do Sistema Único de Saúde (DenaSUS), Rafael Bruxellas. Segundo ele, a auditoria não é uma visita de rotina, mas uma ação de urgência diante das denúncias encaminhadas por pais de pacientes à Ouvidoria do Sistema Único de Saúde (SUS).
"O Ministério da Saúde veio até o Maranhão por conta de alertas da população que não podiam esperar. O DenaSUS não está aqui para uma auditoria de rotina, mas para apurar uma situação de urgência, diante de uma denúncia grave sobre o risco à vida de crianças em situação de vulnerabilidade na saúde", disse o diretor.
Segundo Rafael Bruxellas, caso sejam constatadas irregularidades, o relatório poderá conter alertas e recomendações para que a Prefeitura de São Luís apresente um plano de contingência para corrigir os problemas identificados.
"A primeira característica dessa auditoria é o potencial de produzir resultados imediatos. Estamos realizando uma visita técnica inicial e, com a conclusão desse relatório, poderemos emitir, se necessário, alertas ou recomendações para que seja apresentado um plano de contingência de acordo com o que for identificado. Após o cruzamento dos dados, teremos o relatório completo e vamos verificar se houve qualquer indício de irregularidade ou se alguma criança veio a óbito por desassistência ou por não ter recebido o atendimento adequado. Caso isso seja confirmado, encaminharemos os relatórios às autoridades criminais competentes", afirmou.
Além das inspeções presenciais, os auditores devem examinar prontuários, escalas de profissionais, contratos, indicadores de mortalidade, registros de internação e notificações lançadas nos sistemas do SUS.
Auditoria do Ministério da Saúde no Hospital da Criança em São Luís dura três horas e relatório final deve sair nos próximos dias
Caso é investigado pelo Ministério Público
As denúncias apuradas pelo Ministério da Saúde também são investigadas pelo Ministério Público do Maranhão (MP-MA). Segundo as denúncias, o Hospital da Criança registrou 113 mortes em 2025 e destas, 101 teriam ocorrido dentro das três UTIs da Unidade de Saúde. Seriam 62 mortes a mais do que em 2024.
A Prefeitura de São Luís contesta os números apresentados nas denúncias. De acordo com o Município, em 2024, foram registradas 112 mortes. No entanto, no site do Ministério da Saúde são informadas 39 mortes. Segundo a denúncia, o aumento no número de óbitos coincide com a mudança da gestão das UTIs do hospital.
De acordo com documentos citados na apuração, mais da metade dos 31 óbitos registrados no sistema do SUS em 2025 poderia ter sido evitada. A classificação e os critérios utilizados deverão ser detalhados pelos órgãos responsáveis durante as investigações.
Ministério Público do Maranhão investiga o aumento de mortes nas UTIs infantis do Hospital da Criança
Em outubro de 2025, a Prefeitura de São Luís fez uma licitação para contratar a empresa Instituto Brasileiro de Serviços Médicos (IBMED) para gerenciar as UTIs do hospital. O contrato, segundo o Ministério Público, teria reduzido drasticamente os recursos para custeio das UTIs, assim como números de médicos na equipe.
Profissionais que trabalhavam anteriormente na unidade afirmam que alguns integrantes da equipe foram convidados a permanecer, mas recusaram a proposta porque consideraram que o número previsto de médicos seria insuficiente para garantir um atendimento seguro.
Uma das médicas ouvidas afirmou que seria “humanamente impossível” um único profissional, mesmo qualificado, atender sozinho uma UTI pediátrica de alta complexidade.
Defensoria Pública pediu a anulação do contrato
A Defensoria Pública do Maranhão (DPE-MA) também passou a acompanhar o caso e identificou possíveis falhas no edital utilizado para contratar o IBMED.
Entre os problemas apontados estariam a redução da equipe médica e a possibilidade de contratação de profissionais sem a especialização exigida para atuar nas UTIs pediátricas.
"Quando nós fomos analisar esse processo de contratação, nós percebemos diversas inconsistências e inconformidades. A primeira delas é que um documento técnico fundamental que é o estudo técnico preliminar, que é o que vai nortear tecnicamente todo o processo de contratação, não foi observado. Na verdade, a licitação vai contra todo o estudo técnico preliminar feito pela própria secretaria", diz Davi Rafael Veras, defensor público.
Diante das irregularidades, a Defensoria pediu ao Ministério Público a anulação do contrato firmado entre a Prefeitura de São Luís e o instituto. O Ministério Público abriu um inquérito para investigar tanto as mortes quanto as possíveis falhas no processo de licitação.
Caso sejam comprovados atos de negligência, imprudência ou imperícia relacionados aos óbitos, o órgão poderá instaurar uma investigação criminal para identificar e responsabilizar os envolvidos.
Empresa contratada nega irregularidades
MP-MA investiga denúncia de aumento de 159% nas mortes em UTIs do Hospital da Criança, em São Luís
O Instituto Brasileiro de Serviços Médicos (IBMED), empresa contratada para gerenciar as UTIs pediátricas do Hospital da Criança, nega que tenha reduzido o número de profissionais e afirma que não há irregularidades na execução do contrato.
Segundo o diretor clínico da empresa, Paulo Bayma, atualmente mais de 20 médicos integram a equipe responsável pelo atendimento na unidade.
"Hoje nós temos aproximadamente 20 médicos. Trouxemos profissionais de várias regiões do Brasil que se dispuseram a vir para cá. Vieram médicos do Amazonas, do Piauí, do Ceará, de São Paulo, de vários estados, para que o atendimento médico pediátrico na nossa capital não fosse interrompido", diz o diretor.
Em entrevista à TV Mirante, no entanto, funcionários do hospital relataram que apenas três médicos estariam atuando nas UTIs. O diretor clínico também afirmou que o contrato segue as normas estabelecidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
"Todo o edital foi baseado na RDC nº 7, da Anvisa, de 2010, que estabelece a necessidade de um médico para cada dez leitos em UTIs pediátricas. Estamos cumprindo a legislação. O IBMED não participou da elaboração do Estudo Técnico Preliminar (ETP) e, portanto, não teve qualquer interferência na elaboração do edital. Participamos da licitação, concordamos com as regras e estamos apenas cumprindo o que determina a legislação."
A justificativa é contestada pela Defensoria Pública do Estado.
"O estudo técnico diz que, como existem três centros de UTI, dois com dez leitos e um com nove —, são necessários, no mínimo, dois médicos de referência, responsáveis por toda a estrutura. No entanto, essa licitação considera apenas um, como se fosse uma única UTI com 29 leitos, o que não corresponde à realidade", afirmou Davi Rafael Veras, defensor público.
Famílias relatam demora no atendimento e agravamento de crianças
Kerliane, de 7 anos, morreu após ser atendida e internada no Hospital da Criança em São Luís.
Entre os casos investigados está o de Kerliane, de 7 anos, que morreu após ser atendida e internada no Hospital da Criança.
Segundo a mãe, a bombeira civil Jainara Sousa dos Santos, a menina foi levada à unidade no dia 23 de abril com dor na perna. Dois dias antes, ela havia sofrido uma queda no quintal de casa e machucado a região do glúteo.
Jainara afirma que a filha realizou exames de sangue e uma tomografia. Após a identificação de um coágulo, a criança teria recebido alta sem passar por drenagem.
“Minha filha não estava tão mal, mas ela fez uns exames de sangue e deu um pouco de anemia. Se deu alguma infecçãozinha leve, eles não falaram logo e deram alta pra minha filha”, relatou Jainara.
Dois dias depois, a mãe retornou ao hospital porque a dor havia aumentado e a menina começou a apresentar vômitos. Novos exames teriam apontado uma infecção, além de alterações no pulmão, no fígado e nos rins.
Kerliane foi entubada em uma área conhecida como “grande sala”, onde permaneceu por dois dias antes de ser transferida para uma UTI. A menina morreu no dia 29 de abril.
"A perna da minha filha foi só inchando e ela (a médica) disse que era normal, que era redução de líquido. Quando eles pensaram de fazer a drenagem foi no dia 29, a minha filha faleceu”, lamentou a mãe.
No atestado de óbito constam como causas da morte parada respiratória, sepse, pneumonia hematogênica e artrite séptica, uma infecção bacteriana grave que atinge as articulações.
“Eu me sinto destruída todos os dias porque está faltando (uma filha) dentro de casa. É dolorido. É uma coisa que mata a gente todo dia, saber que você entregou seu filho bem e trouxe seu filho de volta no carro de uma funerária”, disse Jainara.
O caso é investigado pelo Ministério Público do Maranhão.
"Esses casos aí demonstram não somente uma negligência no atendimento, ao ter uma escala que não atende à demanda e à sobrecarga de trabalho dos médicos pediatras, como também, pelas prescrições, certamente imperícias por parte dessa equipe de profissionais do IBMED de Teresina" , explicou o promotor de Justiça Herbertb Figueiredo, da 1ª Promotoria da Saúde.
Bebê morreu após 17 dias de internação
Pais relatam morte de bebê após 17 dias de internação no Hospital da Criança em São Luís.
Outro caso relatado é o de Otto, de 9 meses. A mãe, Leyciane Barbosa, afirma que o filho chegou a ser transferido da UTI para uma enfermaria mesmo sem apresentar condições clínicas para deixar os cuidados intensivos.
Segundo ela, o bebê piorou após a transferência, apresentou inchaço generalizado e teve novos pedidos de internação em UTI feitos por médicas da enfermaria. Otto acabou sendo transferido para outro hospital infantil, onde se recuperou e recebeu alta.
Em janeiro de 2026, porém, o bebê voltou a ser internado no Hospital da Criança, desta vez com uma infecção intestinal. Os pais afirmam que exames e procedimentos básicos teriam demorado a ser realizados.
O menino morreu após 17 dias de internação. A declaração de óbito aponta choque séptico como causa da morte.
“Tenho plena convicção de que o meu filho morreu por negligência. Nunca falaram para a gente que ele estava com sepse ou pneumonia”, afirmou Leyciane.
A família também relata que precisou comprar materiais e medicamentos que deveriam estar disponíveis na unidade, entre eles luvas, sondas e um anticonvulsivante que custava cerca de R$ 600.
Gêmeos morreram após serem diagnosticados com bronquiolite
Famílias de pacientes relatam falhas no atendimento, falta de exames e redução de equipes
Os gêmeos Bento e Bernardo, de 4 meses, deram entrada no Hospital da Criança no dia 27 de junho, com sintomas gripais. Os dois foram diagnosticados com bronquiolite.
De acordo com os pais, Samila e Ismael, Bento apresentava o quadro mais grave, com cansaço e dificuldade respiratória. A mãe afirma que a equipe médica informou que seria necessário entubar o bebê.
Bernardo tinha inicialmente sintomas considerados mais leves e permaneceu por dois dias na sala de medicação. Segundo a família, o estado de saúde dos dois se agravou dentro da unidade.
Após duas paradas cardiorrespiratórias, Bento foi levado para uma UTI, mas não resistiu. O atestado de óbito aponta insuficiência renal aguda, pneumonia, pneumotórax e choque séptico.
Cerca de 24 horas depois de sepultar Bento, o casal também perdeu Bernardo.
“Enterrar dois filhos em menos de 24 horas é inadmissível”, afirmou Ismael.
Samila diz acreditar que houve falha na assistência prestada aos filhos. “Faltou atenção, faltou profissionalismo”, declarou.
Indicadores apontam 65 mortes no primeiro semestre
A reportagem também teve acesso a indicadores internos do Hospital da Criança referentes ao período entre 1º de janeiro e 30 de junho de 2026.
De acordo com os documentos, foram registradas 65 mortes na unidade durante o primeiro semestre. Cinquenta e três delas ocorreram dentro das UTIs.
Os dados apontam um crescimento de 38,89% em comparação com o mesmo período do ano anterior.
As informações fazem parte do conjunto de documentos analisados pelo Ministério Público e pelos demais órgãos que apuram o funcionamento do hospital.
Profissionais denunciam redução da equipe médica
Médicos, enfermeiros e técnicos que trabalham ou trabalharam no Hospital da Criança afirmam que houve redução significativa da equipe depois de uma mudança na gestão das UTIs. Os profissionais aceitaram falar sem serem identificados por medo de retaliações.
Segundo uma médica pediatra, até 12 de outubro de 2025 as três UTIs contavam com 53 médicos. As escalas teriam oito profissionais pela manhã, seis à tarde e seis durante a noite.
A partir do dia 13 de outubro, segundo os relatos, o número de médicos teria sido reduzido. Em determinados plantões, haveria apenas três profissionais para atender as três UTIs — um médico em cada unidade.
Os denunciantes também afirmam que parte dos plantonistas não teria especialização ou experiência em pediatria.
“Com esse quantitativo de profissionais, mesmo um médico treinado, muito experiente e capacitado não daria conta desse cenário. E estamos falando de pessoas que não têm experiência em pediatria. Na grande maioria das vezes, não é um pediatra que está no plantão, e isso tem um impacto direto na assistência".
Outra médica afirmou que a redução da equipe pode diminuir as chances de sobrevivência das crianças internadas em estado grave.
Os funcionários também relataram possíveis falhas em prescrições, falta de materiais, ausência de medicamentos e dificuldades na realização de procedimentos de emergência.
Em um dos relatos, uma profissional afirmou que duas médicas não teriam conseguido realizar uma desfibrilação durante o atendimento a uma criança que sofreu uma parada cardíaca. O paciente morreu.
A denúncia ainda será analisada pelos órgãos responsáveis e não há, até o momento, conclusão oficial sobre o episódio.
O que dizem as autoridades
Prefeitura nega omissão de dados
A Prefeitura de São Luís negou que haja desabastecimento generalizado de insumos e medicamentos no Hospital da Criança. A gestão municipal admitiu, no entanto, que podem ocorrer reduções pontuais nos estoques em períodos de alta demanda.
Nessas situações, segundo o município, são realizados o remanejamento interno de materiais ou a substituição de medicamentos por produtos equivalentes.
Sobre a segurança e a qualidade do atendimento, a prefeitura afirmou que monitora as UTIs pediátricas para evitar a interrupção dos serviços ou o fechamento de leitos.
A administração municipal também destacou o papel regional do Hospital da Criança. Segundo a prefeitura, a unidade realiza cerca de 10 mil atendimentos por mês e 71% dos pacientes internados no primeiro semestre deste ano vieram de municípios do interior do Maranhão.
A Prefeitura de São Luís também negou que omita informações do Sistema Único de Saúde e afirmou que todas as mortes registradas no hospital são notificadas oficialmente ao Sistema de Informações sobre Mortalidade.
De acordo com a gestão municipal, eventuais diferenças entre os dados locais e as informações disponíveis nos sistemas públicos federais são provocadas por atrasos no processamento e na atualização da base nacional.
Ao contrário do que aponta a denúncia investigada pelo Ministério Público, a prefeitura informou que não houve aumento expressivo no número de mortes no Hospital da Criança.
Segundo o município, houve uma variação de 4,5% entre 2024 e 2025. O número de óbitos passou de 112 para 117 no período.
A gestão municipal também afirmou que o quadro de profissionais das UTIs atende integralmente às exigências da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa.
A prefeitura reforçou ainda que não existem registros oficiais de desabastecimento generalizado e que o fornecimento de materiais hospitalares segue um planejamento contínuo.
Contrato com o IBMED
Sobre a contratação do Instituto Brasileiro de Serviços Médicos, o IBMED, a Prefeitura de São Luís afirmou que a licitação e o contrato cumprem rigorosamente a legislação.
O município declarou ainda que o Tribunal de Contas do Estado negou os pedidos de suspensão do contrato e arquivou as representações apresentadas contra a administração municipal.
Conselho Regional de Medicina
O Conselho Regional de Medicina informou que acompanha a situação das UTIs pediátricas do Hospital da Criança.
Segundo o órgão, o objetivo é garantir a segurança da assistência prestada aos pacientes e as condições de trabalho dos médicos.
O conselho afirmou que atua conforme a legislação e que adotará as medidas cabíveis caso sejam identificadas irregularidades.
Ministério Público Federal
O Ministério Público Federal informou que recebeu a denúncia sobre a situação do Hospital da Criança.
O caso será analisado por um procurador da República, que vai avaliar a adoção das medidas necessárias para apurar os fatos.
Ministério da Saúde
O Ministério da Saúde informou que já apura as denúncias encaminhadas à Ouvidoria do SUS sobre as mortes registradas no Hospital da Criança, em São Luís.
Uma equipe do Departamento Nacional de Auditoria do Sistema Único de Saúde, o DenaSUS, foi enviada à unidade para analisar a situação das UTIs pediátricas e verificar as informações apresentadas nas denúncias.

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